sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008


Política francesa inspira histórias em quadrinhos
Segunda, 26 de fevereiro de 2007
Fernando Eichenberg

"O sisudo general Charles de Gaulle, um dos maiores líderes que a França conheceu, por vezes revelava também uma pitada de humor, sem no entanto perder a pose e a dimensão de sua estatura de estadista.
- Meu único rival internacional é Tintin - disse certa vez, em tom de brincadeira, referindo-se ao célebre personagem de história em quadrinhos (HQ), criado pelo belga Hergé.
Mas, às vésperas das eleições presidenciais francesas, foi Tintin, o intrépido repórter globe-trotter, que ganhou novos e inesperados concorrentes. No país da dupla de heróis gauleses Asterix e Obelix, a HQ convocou personagens reais para ilustrar alguns de seus mais recentes álbuns: os principais protagonistas da atual campanha eleitoral.
A HQ, uma tradição e um sucesso francês (um recorde de 4.130 títulos publicados e 40,5 milhões de exemplares vendidos em 2006), invadiu com todas as tintas o mundo da política. As principais estrelas a tomarem a forma de desenho foram os dois líderes nas pesquisas eleitorais: Nicolas Sarkozy, do partido governista União por um Movimento Popular (UMP), e Ségolène Royal, candidata do Partido Socialista (PS). Devidamente acompanhados, é claro, de seu entourage, os companheiros de partido, a família, as celebridades, a imprensa e, como personagem coadjuvante, o povo.
A face karchée de Sarkozy (Philippe Cohen/Richard Malka/Riss, ed. Vents d'Ouest-Fayard) abriu a série inaugurando um novo gênero: a HQ investigativa. Philippe Cohen, também autor de um livro-denúncia sobre bastidores da história do jornal Le Monde e de uma biografia não-autorizada do filósofo Bernard-Henry Lévy, desta vez mergulhou em subterrâneos de episódios marcantes da vida pessoal e política de Nicolas Sarkozy. O hiperativo candidato governista é retratado em diferentes nuanças no jogo de traições partidárias, ambições pessoais, contradições de discurso e de práxis política e relações com a mídia.
- É, aliás, essa perpétua encenação que me deu a idéia de uma HQ à la Tintin - disse Philippe Cohen.
A saga de Sarkozy em HQ já vendeu mais de 100 mil exemplares na França, e recebeu também artigo na prestigiada revista semanal britânica The Economist."